Além dos créditos

Este fórum é o espaço para conversarmos sobre o filme que não está na tela, que ultrapassa os minutos de sua narrativa. Desde curiosidades sobre a direção, os atores,... até àquilo que ele nos remete (ou o que nos remeteu a ele) e como ele habita nossos sonhos.

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Sobre "O ano em que meus pais saíram de férias"... Eu assisti a esse filme um ano após seu lançamento, e devo à minha infância permanente tê-lo conhecido.

Assistia muito, e ainda assisto (às vezes), ao "Castlo Rá-tim-bum", um seriado infantil maravilhoso e de universo riquíssimo. Em 2007, reassistindo ao filme Castelo Rá-tim-bum, feito no dinal dos anos 1990 após o fim do seriado, procurei curiosidades sobre ele; seu diretor, Cao Hamburguer, despertou minha atenção e li a biografia dele. E descobri que ele havia dirigido, em 2006, "O ano em que meus pais saíram de férias". Assisti esse filme na época e achei maravilhoso, tanto que o levei como recomendação à professora de História por causa do contexto (a ditadura militar brasileira).

O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias

Apesar de ser brasileira, eu assisti pela primeira vez o filme na disciplina de Intercompreensão. O filme é essencialmente um retrato cultural do povo brasileiro... A alienação das competições dos campeonatos de futebol em relação ao que ocorre politicamente no país e no mundo. E por esse motivo, é compreensível que meus pais, que foram crianças nessa época (1970) não se recordem das perseguições políticas que ocorreram, assim como as crianças cujos pais não "saíram de férias". Mauro, o menino do filme, leva uma vida conturbada com os acontecimentos e embora os adultos ao seu redor se esforcem para que ele não entenda a gravidade da realidade, ele aos poucos se percebe num mundo de ilusões e incertezas. Perguntei aos meus pais como era viver naquela época e parece que meus avós tinham outras preocupações como por exemplo o que comer à mesa para sustentar seus filhos. No interior paulista, Dracena, onde meu pai viveu, não existia essa preocupação, pois a preocupação era existir: as crianças roçavam, plantavam, colhiam e caçavam. Acordavam antes do galo: o café da manhã era o almoço (nos dias fartos). Caminhavam horas para ir à escola em meio a poeira das estradas de terra... O que não é muito diferente em algumas regiões do Brasil, ainda nos dias de hoje.

E, em Campinas - SP, minha mãe narra que usava roupas e sapatos doados (geralmente apertados por serem menores que os pés) que cabiam em caixas de papelão onde as guardavam, dividiam camas beliches com 5 pessoas e brincavam com bonecas de palha de milho, tijolos e pedras. Com 11 anos era ela, menina, responsável por seus irmãos mais novos e afazeres domésticos de casa, enquanto seus pais trabalhavam: meus avós pelejavam para sustentar seus 18 filhos, frutos de dois casamentos (o segundo casamento, após ambos enviuvarem) trabalhando como empregados domésticos para militares ou nas fábricas. 

O menino Mauro viveu uma dura realidade, o que não significa que as outras crianças, como meus pais, também não viveram... E ainda vivem! A ditadura militar foi a forma mais evidente de como é constituída nossa nação e nossa riqueza: das desigualdades, da exploração de recursos naturais e pessoas e da falta da ausência da dignidade da pessoa humana. O dicionário compara a dignidade com honestidade. Talvez por isso, não é de se estranhar que no Brasil, falte as duas.

Cao Hamburger capta a essência da imaginação de criança e a transforma em realidade em seus filmes e na série Castelo Rá Tim Bum. De uma sensibilidade tremenda! Todos os filmes propostos demonstram essa preocupação e eu me recordei de  "El laberinto del fauno" de Guillermo del Toro ao assisti-los.

Trés émouvant ton texte-témoignage Aline, tu pourrais très bien le proposer dans le GT didattica 2 La percezione della dittatura auquel tu pourrais t'inscrire